quarta-feira, 4 de abril de 2018

Dos meios e do fim

Por Ingrid Bianchini

"A coisa mais fina do mundo é o sentimento" 

A gente não aposta tudo o que tem de bens materiais sem nenhuma garantia de retorno, ou pelo menos tenta não apostar em totalidade. Para tudo, a gente tende a analisar antes de mergulhar de cabeça financeiramente ou de dispor muito tempo e energia em alguma atividade. Para muita coisa externa a gente pensa nos meios para chegar a um fim. Mas, quando a gente se relaciona e se deixa envolver, parece que o único fim é estar junto, a gente esquece de algo primordial chamado "eu", não é ingenuidade, é porque parece que nada vai dispersar o que se sente, aquela sensação de infinito romantizado passa conforto e segurança, a gente mergulha de cabeça em sentimentos, logo neles que são confusos, mas tudo bem, o bom é viver, sim. 

Quando eu consegui abrir os olhos para a minha "grande aposta" ela já não era mais o meu ideal, apesar de já saber que havíamos chegado ao fim, ainda era turvo demais para aceitar, eu havia apostado alto, abrir mão parecia doer bem mais do que continuar patinando entre brigas e desconfianças com carícias breves, já não havia mais planos para um futuro, estávamos nos baseando num passado lindo e num presente maçante. Claro, enxergar isso no meio do tormento era impossível, mas aceitar, com o tempo, o que tudo realmente era foi libertador. 
Com os olhos mais abertos, eu percebi uma dor híbrida (Será que me enganei? Será que perdi tempo? Será que fui incapaz? É incompetência que chama?) que iria me atormentar por algum tempo, porém ela também seria o meio para chegar finalmente até mim. 


Depois de muito pensar sozinha, olhando para a parede roxa extremamente escura que pintamos juntos, às vezes olhando com pesar para a pilha de jogos que brincávamos a noite, remoer os detalhes que poderiam ter sido diferentes, me cansou tanto que de algum modo meu foco mudou, eu continuava pensando muito sozinha, e essa solidão foi enriquecedora nos meus dias, mas agora eu pensava em mim, eu me refletia, analisava, sonhava pra mim. Isso começou a ficar curioso e fui me dando conta que fazia demasiado tempo que não cuidava desse jeito dessa minha grande amiga que sou eu. Parecia que a vontade de apostar retornava, só que essa nova aposta era centrada em mim. 
Não nego que me peguei sabotando meus próprios sentimentos por achar que estava sendo egoísta por tomar algumas decisões, mas era tão bom pensar em mim primeiro, novamente. Sabe aquela cor que o outro nunca simpatizou e que você sempre gostou? Aquela viagem que foi muito postergada? Aquela foto dos gatos que poderia ter sido pendurada na porta e ainda não tinha sido para se evitar qualquer conflito? Então, quando eu apostei em mim, achei que era hora de tudo acontecer.

A vida tem sido generosa comigo, eu pude aprender de dentro pra fora, que nada me pertence a não ser eu mesma, que não tenho domínio sobre nenhuma outra vida senão a minha e que egoísmo é eu não querer dividir, logo aquela ideia de me colocar no centro de algumas decisões emocionais é amor próprio, nada de egoísmo. Porque eu ainda quero compartilhar muitos sorrisos, choros, surpresas e momentos, só que agora o retorno da minha aposta é único: equilíbrio emocional, paz interior, sanidade. Não é que deixei de mergulhar fundo nas pessoas, muito pelo contrário, mergulhos rasos me assustam muito mais, só penso que agora estou nadando um pouquinho melhor.


Depois de alguns meses (e  apoio de amigos, viu só, é mesmo bem chato ser feliz sozinho, não me atrevo a dizer impossível) as coisas foram mudando mais, as cores das paredes, os pisos, as plantas se tornaram poucas e maiores, a ansiedade foi dando lugar para uma sensação boa, chamo ainda de liberdade de escolhas, mas não sei se é isso, essa é outra liberdade que me permiti recentemente - a de não ser tão exata sempre, escolher por mim é algo que não quero mais perder, porque sim... vamos admitir, a gente se doa de alma às relações (isso ainda acho bom, se não perde o sentido pra mim) e então deixa de se acarinhar (e isso é bem triste). 

Às vezes, fica parecendo que a gente só se ama quando termina uma relação, não é bem assim, mas quando o fim chega, bate a sua porta entregando um embrulho chamado "você" e levando aquele apegado "nós" e você se vê apenas consigo para abrir o embrulho que lhe cabe e se redescobrir é algo singular, então, nesse ponto é que aquela dor do fim deixa de ser tão presente e ocupante e passa a ser uma visita esporádica que retorna por meio da lembrança. 


E por falar em lembranças ... elas também se tornam boas e te fazem sorrir. É lembrar com carinho do que foi bom e agradecer a si e ao outro por ter vivido tudo o que pode viver, é dar espaço às novas histórias. 
Afinal, o meio para ficar bem depois de acabar uma relação é cuidar de si, porque no fim das contas você é quem vai estar sempre com você. O sentimento, como dizia Adélia Prado, é a coisa mais fina do mundo, o amor próprio pode ser requinte, mas também é frágil, exige cuidados.

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