segunda-feira, 2 de abril de 2018

Você não pode tocar com cordas quebradas

Este último final de semana, eu estava em casa dando uma arrumada nas coisas, e coloquei um CD com algumas músicas que gosto, e ao ouvir “Broken Strings” do James Morrison com a Nelly Furtado, inevitavelmente refleti sobre o quanto somos apegados ao que já se quebrou. Tentamos ainda tocar com cordas que já se arrebentaram, como se fosse possível tirar delas algum som, ou ainda, alguma nota que seja familiar.

O que nos leva ao apego? O apego por alguém que já se foi? O apego pelo trabalho que adoece, ou não faz mais sentido? O apego pelo amor que se esvaiu? O apego pelo status? O apego pela luta? O apego pelo sofrimento? Ouvindo “Broken Strings”, pensei em todas as cordas que se arrebentaram também na minha vida, e que inevitavelmente eu tive que abandonar os acordes porque era impossível obter ainda algum som vivo daquela situação, e tive que entender que era assim, afinal, não é possível tocar com uma corda quebrada. Me vi, olhando para pessoas admiráveis, que também viram que suas cordas não faziam mais som, e entenderam que esfolar os dedos tentando não era mais uma opção, e assim seguiram, fazendo música com a vida, tentando outros sons e outros acordes, que não deixam ser especiais e belos.


Saber que não é possível tocar com cordas quebradas, é compreender que algumas situações da vida se encaminham também para uma ruptura, que pode ser em qualquer área. Posso tentar ainda tocar as cordas de uma amizade que já não faz mais sentido, posso tentar tocar as cordas daquela profissão que escolhi aos 17 anos, e que hoje, ou talvez nunca tenha me representado, posso tentar tocar as cordas de um amor impossível, ou de um amor que não existe mais, tentando arranhar acordes que não se formarão, tentando ouvir um som que acalente a tristeza da ruptura das cordas, mas pra quê? Arrebentar uma corda na vida, talvez seja a mudança que precisamos, cordas quebradas precisam ser trocadas, ou não se tem mais som. Quando as cordas estão ruins e não se quebram, você pode não enxergar que elas precisam ser substituídas, às vezes, vai se contentando com sons desafinados, mas quando elas quebram, não tem jeito, você vai precisar parar, olhar para essas cordas e trocá-las. Assim, é na vida, situações quebradas, precisam de algo novo, para que você possa continuar a ouvir a música. Talvez precise ser algo novo em folha, ou talvez, o mesmo reinventado, quem sabe.

Insistir em tocar cordas quebradas, é apego. E como somos apegados (eu, me incluo nessa). Soltar, deixar ir, trocar as cordas é um exercício muito difícil. Requer autoconhecimento, empatia. Soltar a situação é entrega. Entrego, confio, aceito, agradeço. Tem uma frase da monja Tenzin Palmo que é a seguinte: “...apego não é amor verdadeiro, apego é só amor a si mesmo.” Só que esse amor a si mesmo, não é aquele positivo, é aquele que faz você achar que sem aquela coisa, sem aquela situação, sem aquela pessoa é impossível dar continuidade, é o amor baseado no medo, o medo que faz você insistir no que quebrou.


Eu espero que você consiga trocar as cordas que se quebraram com equilíbrio, inteligência, carinho, empatia. Espero que eu também consiga fazer isso com as cordas que se quebram na minha vida, e que juntos possamos compor novas canções, canções que preencherão corações completos e afinados, talvez, embalados por músicas diferentes, mas sempre em busca do melhor som.

Ouça a música do James Morrison com a Nelly Furtado, e leia a legenda também :) 

Sorte pra todos nós!




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